Aqueles que, permanentemente, fazem da Madeira o seu ódio de estimação, por ventura comentaram a manchete de hoje do independente Diário de Notícias, segundo a qual os nossos amigos (bem…quem tem amigos destes… não precisa de inimigos, lá diz o povo) açorianos já receberam do Estado e da União Europeia qualquer coisa como mais 2 mil milhões de euros do que a Madeira?
Não sou técnico, não falo economês, mas percebo muito bem que 2 mil milhões é muita massa. É tanto dinheiro que nem dá para visualizar, para saber o que se poderia fazer com ela. (Pelos vistos, pelos lados do anticiclone também não, já que o dinheiro foi mas a obra não está à vista). Todavia, nem essa é a questão mais grave. O imperador do arquipélago vizinho (quem tem vizinhos destes tem que saber defender-se muito bem, claro está), um pouco a exemplo que foi acontecendo ao longo das últimas décadas, não sabe o que é que quer. Ou melhor, só sabe dizer quanto quer. Não em quantidade, em em termos proporcionais. O que ele quer mesmo é ter mais do que a Madeira. Se a Madeira pede 100, ele quer duzentos. Se a Madeira pede 200, ele quer 400. (Não se sabe bem para quê, mas enfim).
E assim se faz a política. Compreende-se a necessidade que os políticos têm de arranjar um inimigo externo para esconderem as suas fragilidades, uma verdade que é válida aqui e em todo o lado e que é sempre utilizada, por todos, sem excepção, com notável sucesso. Mas há que ter um mínimo de decoro. A Madeira e os madeirenses saberão, com certeza, responder com altivez a estes golpes baixos.
A afirmação da autonomia e da qualidade de ser ilhéu não se compadece com este tipo de discurso. A história está cheia de episódios divisionistas que enfraquecem as posições comuns e dão azo a que quem na verdade tem o poder possa decidir discricionariamente. Foi assim nos Açores quando, no final do século XIX as divergências entre Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta abortaram um novo enquadramento autonómico mais alargado ás ilhas, de que a Madeira sofreu também por arrastamento, já que deixou ao livre arbítrio de Lisboa a decisão final. Foi assim nas ilhas Canárias com o chamado “pleito insular”, opondo Las Palmas a Santa Cruz de Tenerife, processo que ainda hoje é visível na sua organização política e administrativa.
Com este tipo de conversa aquela massa acrítica do rectângulo que, sem conhecer as ilhas, se julga dono delas, à maneira colonial, e atira os maiores disparates apelidando os ilhéus de sanguessugas, chupistas e outros adjectivos inqualificáveis, vai continuar a ter argumentos para dizer displicentemente que as ilhas vivem às custas do erário público, supostamente só deles, claro, porque para eles aqui ninguém trabalha, não paga impostos, nem produz nada. Só mesmo eles, mesmo aqueles que vivem á custa do desemprego e do rendimento mínimo. Está na hora de parar com este disparate.