As tábuas de madeira

Dêem-me as tábuas,
essas tábuas de madeira firme
com que se constroem os barcos.

Dêe-me as tábuas rijas do tempo,
as tábuas livres e cantantes de madeira
com que se erguem os muros fortes
das cidades inexpugnáveis.
Deixem-me juntá-las às folhagens
do despojamento da sua condição de árvores.

Com elas, prometo,
irei vigorosamente alicerçar,
no entrelaçar das tempestades
que se lêem nos intervalos das nuvens invernais,
as jangadas calmas
que respondem nas manhãs de nevoeiro
pelo simples nome de casas.

Depois, se verdadeiramente me apetecer,
decoro-as com dois pares de asas
e deixo-as voar.

A promessa permanece no poema.
Deixemos as casas, na sua condição de jangadas,
cumprir com a sua missão de navegar.

José António Gonçalves
(in “Memórias da Casa de Pedra“, Colecção “Terra à Vista”, nº. 1, nota de contra-capa de Albano Martins, Ed. Arguim-Madeira, 2002)

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Golpe baixo

Aqueles que, permanentemente, fazem da Madeira o seu ódio de estimação, por ventura comentaram a manchete de hoje do independente Diário de Notícias, segundo a qual os nossos amigos (bem…quem tem amigos destes… não precisa de inimigos, lá diz o povo) açorianos já receberam do Estado e da União Europeia qualquer coisa como mais 2 mil milhões de euros do que a Madeira?
Não sou técnico, não falo economês, mas percebo muito bem que 2 mil milhões é muita massa. É tanto dinheiro que nem dá para visualizar, para saber o que se poderia fazer com ela. (Pelos vistos, pelos lados do anticiclone também não, já que o dinheiro foi mas a obra não está à vista). Todavia, nem essa é a questão mais grave. O imperador do arquipélago vizinho (quem tem vizinhos destes tem que saber defender-se muito bem, claro está), um pouco a exemplo que foi acontecendo ao longo das últimas décadas, não sabe o que é que quer. Ou melhor, só sabe dizer quanto quer. Não em quantidade, em em termos proporcionais. O que ele quer mesmo é ter mais do que a Madeira. Se a Madeira pede 100, ele quer duzentos. Se a Madeira pede 200, ele quer 400. (Não se sabe bem para quê, mas enfim).
E assim se faz a política. Compreende-se a necessidade que os políticos têm de arranjar um inimigo externo para esconderem as suas fragilidades, uma verdade que é válida aqui e em todo o lado e que é sempre utilizada, por todos, sem excepção, com notável sucesso. Mas há que ter um mínimo de decoro. A Madeira e os madeirenses saberão, com certeza, responder com altivez a estes golpes baixos.
A afirmação da autonomia e da qualidade de ser ilhéu não se compadece com este tipo de discurso. A história está cheia de episódios divisionistas que enfraquecem as posições comuns e dão azo a que quem na verdade tem o poder possa decidir discricionariamente. Foi assim nos Açores quando, no final do século XIX as divergências entre Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta abortaram um novo enquadramento autonómico mais alargado ás ilhas, de que a Madeira sofreu também por arrastamento, já que deixou ao livre arbítrio de Lisboa a decisão final. Foi assim nas ilhas Canárias com o chamado “pleito insular”, opondo Las Palmas a Santa Cruz de Tenerife, processo que ainda hoje é visível na sua organização política e administrativa.
Com este tipo de conversa aquela massa acrítica do rectângulo que, sem conhecer as ilhas, se julga dono delas, à maneira colonial, e atira os maiores disparates apelidando os ilhéus de sanguessugas, chupistas e outros adjectivos inqualificáveis, vai continuar a ter argumentos para dizer displicentemente que as ilhas vivem às custas do erário público, supostamente só deles, claro, porque para eles aqui ninguém trabalha, não paga impostos, nem produz nada. Só mesmo eles, mesmo aqueles que vivem á custa do desemprego e do rendimento mínimo. Está na hora de parar com este disparate.

Águia

Águia Voar, pensava então,
como se num bater de asas se elevasse o
mundo,
como se a primavera rasgasse para sempre
a nuvem escura,
e sobre os meses não caíssem as penas,
como se as minhas garras sustentassem o
cordeiro ou a estrela
e mais para cima o meu bico cansado
levasse o teu coração.

José Agostinho Baptista
Agora e na Hora da Nossa Morte

O meu, o teu e o nosso


Os corações generosos costumam dizer: o que é meu é teu. Já os egoístas, não fazem por menos: o que é meu é meu; o que é teu é meu. Ora, se a Bíblia nos aconselha a dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César, estes últimos dias temos assistido à inversão completa de tudo isto. E não é que dos lados do anticiclone o César local, depois de assegurar o que é seu, também quer o que é dos outros?
E pelos vistos até foi convidado para a consagração deste fim de semana. Ele merece. Já que a reverência não tem limites, cantem-lhe todos os avés.

HH

Se houvesse degraus na terra…

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Helder

A nação

Nas últimas semanas, assistimos a vários fenómenos característicos do enraizamento centralista que domina o país. Em jantar com apoiantes, o presidente do “Glorioso” Benfica veio dizer, ou melhor, reafirmar, redizer, que o Benfica não é um clube do Norte, do Sul ou de que lugar sejam mas um clube nacional. “Somos o país”, terá afirmado Luís Filipe Vieira. Vai daí, rugiu o leão do outro lado da circular lisboeta a dizer que não, pelo contrário, o Sporting é que tem esse estatuto, até pelo nome que ostenta, enquanto o rival das águias diz que é de Lisboa. Deita fumo pela boca o dragão do Norte, empenhado na cruzada contra o sul, contrariando com a estatística das vitórias o pretensiosismo da capital.
Não há pachorra para estes senhores. Mais do que isso. Não há também pachorra para os parolos de cá que, não sabendo para que lado sopra o vento, vão atrás das bacoradas atiradas por influência baconiana (ou lá perto, talvez escocesa) gritando, agitando os braços, como se o país fosse o futebol e o futebol fosse o país.
O prazer de ver os artistas da bola dando espectáculo não se pode confundir com esta turba inconsciente que deveria dar mais importância à beleza do jogo jogado do que ao jogo de palavras. E assim andamos entretidos, repetindo os FFF de Salazar, esquecendo o essencial, seguindo quimeras que não nos ajudam a crescer.
Bem sei que a simpatia futebolística não tem lógica. Mas nestas coisas tanto tem culpa quem “bota faladura” sem saber o que está a dizer, como os carneiros passivos que comem, calam e aplaudem. Que raio de narcisismo.

As Senhoras da Madeira

Sem surpresa, verifiquei que a transcrição de um texto sobre as mulheres madeirenses tem sido um dos post mais lidos neste meu humilde blog. Indo de encontro a esse desejo imenso de conhecer melhor as nossas pérolas, aqui vai mais um retrato, publicado em Londres, em 1900 por Anthony J Drexel Biddle, no seu livro The Madeira Islands, e relembrado por António Marques da Silva, no seu livro, Passaram pela Madeira, Colecção Funchal 500 anos, publicado em 2008.

«As senhoras da Madeira são de uma beleza muito especial e as suas maneiras encantadores fascinam o estrangeiro que tem a sorte de conseguir a honra de ser admitido nesta sociedade. São francas, com bom domínio de línguas e boas conversadoras, donas de muitas qualidades inatas e geralmente dotadas de notável talento musical. Quanto ao temperamento são românticas, fogosas e emotivas e adoptam uma maneira de ser elegante e reservada. Quanto à estatura são de modo geral finamente proporcionadas e o porte é simples, livre e gracioso.

Aparecem em público vestidas de negro, cor que apreciam apaixonadamente e usam os seus cabelos, geralmente compridos e negros, caindo livremente sobre os ombros, ou entrançados com fitas ou presos num cocó com alfinetes e com alfinetes decorativos e pentes. (…)
As feições são regulares, a cor de pele, escura, e os seus olhos, lânguidos. Não há dúvida que os olhos langorosos das beldades madeirenses nunca poderão ser esquecidos pelo estrangeiro que um dia deparou com o seu olhar penetrante. Uma característica é o acto de baixar as pálpebras de modo que as longas pestanas sedosas protegem discretamente os olhos femininos que só se levantam ocasionalmente quando cintilam, brilhantes e verdadeiros, como duas jóias radiosas. A madeirense bonita expõe os seus olhos com a inglesa as suas jóias – isto é, apenas em ocasiões próprias.»
Lindo!!!

Os hábitos também se alteram

Estava a aldeia na sua quietude quando uns vizinhos resolveram introduzir um meio mais fácil, mais barato e mais rápido para nos fazer transportar entre a ilha e a metrópole. Até à data tudo estava perfeito. Estávamos tão habituados ao tempo, isto é, ao tempo perdido à espera das encomendas, dos carros, das frutas, dos materiais, etc, que, mais semana menos semana na satisfação de um pedido qualquer, já não fazia diferença. O hábito tem destas coisas. Tal sistema monopolizante, agradava quem o controlada. Nós, pobres seres, … que remédio. Havia que limitar-se ao que havia. Ao hábito.
Quando o hábito se alterou, alguns houve que espernearam, continuam a espernear, tentando reverter a marcha do destino para os hábitos do passado. Não sabemos se irão conseguir. É provável que não, mas, como lá diz o velho ditado, depois de ver um porco a andar de bicicleta, tudo é possível.
Os hábitos também se alteram, como está provado. O que está para ver é se a justiça neste país olha mais para os seus cidadãos.

Bailinho da Madeira

Hoje, quase todos os jornais, a começar pelos desportivos, falam na transferência do jovem Rúben Micael do Nacional para o Futebol Clube do Porto. Se é uma pena que os clubes regionais não tenham capacidade para segurar talentos como os do jovem camaralobense, é motivo de enorme orgulho verificar que, mais uma vez, a Madeira “exporta” um talento que irá espalhar a sua magia pelos campos de futebol do país e da Europa.
Será difícil o jovem Micael atingir o patamar de Ronaldo, mas não deixa de ser motivo de orgulho ver mais um jovem madeirense escrever o seu nome num dos mais importantes clubes portugueses.
Cristiano Ronaldo, Dany, Ruben Micael. Esperemos que os três, que me arriscaria a chamar de magníficos, sejam chamados à África do Sul. O peso da Madeira teria outro encanto. O bailinho imporia o seu ritmo. Ora digam lá que não é motivo de orgulho.
Boa semana.

As bíblias do sistema


O Expresso falou? Tá certo. A Visão relatou? Inquestionável. O Sol escreveu? Não há dúvida. O Diário de Notícias (de Lisboa) disse? É verdade. O Diário de Notícias (da Madeira) denunciou? Não há dúvida. A TVI, a SIC mostraram? Uma imagem vale mais do que mil palavras. O blico investigou? Está tudo provado. Sousa Tavares opinou? Ele tem sempre razão. O….
O país está cheio de bíblias. E sempre que uma bíblia fala, nós, pobres seres incultos, desinformados, retrógrados, ignorantes e fanáticos, seres menores, lá temos que reverenciar os supra sumos da informação, detentores da verdade, guias supremos, de poder inquestionável. E ai de quem não achar que tudo o que dizem nos ilumina, nos indica o caminho, sob pena de o nosso futuro ser negro, negro como breu, sem hipótese de lá entrar qualquer réstia de luz.
A Bíblia desta semana vai para a Visão que nos “retratou” o estado da pobreza na Madeira. Obrigado iluminada Visão que nos mostras à saciedade o estado lastimoso dos nossos pobres. Obrigado por nos revelares o que está mesmo ao nosso lado e que não vemos, que supostamente alguns querem esconder, e que muitos não querem revelar. Obrigado Visão esclarecida por que assim passamos a saber com o que contamos. Obrigada Visão reveladora por nos dares o retrato real do que somos e do que não somos. Obrigado por nos facilitares o trabalho para saber onde devemos fazer algo para tornar a ilha da fome num lugar aprazível onde os turistas não venham cá para ver os pobres, mas a riqueza da sua paisagem.
E por que um Obrigado acarreta sempre uma obrigação, não te esqueças Visão ilustre de fazer o mesmo retrato de todos os cantinhos deste santo e iluminado país que o lugar comum coloca à “beira mar plantado”, tão alegre e despreocupado, onde não há retratos de pobreza, onde os desempregados são números e os falidos miragens. Onde não há emigrantes, e o país tão rico tão rico que até dói. Por favor, faz-nos o retrato fiel desse rectângulo maravilhoso e das suas sete ilhas nove ilhas encantadas, mostrando-nos o caminho da perfeição. Por favor!!
Prometo rezar-te sete visões e um rosário de expressos.

PS: Obrigado “Diário Cidade” porque, pobre como és, a exemplo de todos os madeirenses, tiveste a coragem de plasmar a coragem bíblica da Visão. Obrigado. Do fundo do coração. Assim pode ser que lá chegues. (A bíblia, quem sabe…)